Transcrições da fome



É só mais um dia na cidade dos homens.

Estou com fome de novo. Fome de sangue, fome das coisas que vejo aqui e ali escondidas dentro de seus ternos caros. Fome de coisas suculentas e vermelhas.
Não me classificaria como humano. Penso que sou melhor que isso. Humanos são uma das maiores cagadas de Deus, Literalmente falando. Uma bosta que saiu do anel divino condensando o que sobrou depois de ter feito o universo. Não que eu me sinta mal com isso, afinal de contas o cheiro que sinto em vocês macacos sorridentes enfiados em seus ternos caros é compensador. O cheiro embebido em naftalina e éter, hospitalar; o cheiro inebriante e sexy da falta de competência em sobreviver a mim.

Eu passo por vocês nas avenidas ou enquanto fazem seus passeios de bicicleta para tentar prolongar a vivência de seus corpos e rio alto pensando na qualidade da estupidez humana. A maioria de vocês não imagina o que se esconde debaixo da cidade. Não conseguiriam dimensionar algo de aparência tão rústica e inteligência tão avançada. Perto deles, dos que eu sirvo; vocês são apenas pedaços de carne, costurados em um esqueleto frágil. Só isso. E vocês são bem menos que a matéria divina da qual fui feito. São um acidente da criação. Uma ameba que saiu da sopa de sêmen universal que originou esse planeta.

Hoje preciso comer e adoro carne humana. O aroma que passa para a carne quando vocês estão com medo. A urina que tempera suas pernas quando sentem o cheiro da morte. Todos precisam comer e eu estou acima de vocês na cadeia alimentar. Faço com vocês o que fazem com seus porcos e frangos de granja. Destrincho, eviscero e como. Prefiro in natura para manter as proteínas. Não é nada agradável ter fome o tempo todo e ratazanas e pombos não me satisfazem mais. Preciso de carne para manter minha carne. Vocês não deveriam me recriminar. Em suas igrejas fazem a mesma coisa com o filho de Deus, vocês comem a sua carne e bebem de seu sangue assim como eu. Tentem morder uma hóstia em um local sagrado. Sairá sangue dela. Sangue do cordeiro. Vocês deturparam algo sagrado para meu povo. Transformaram em um crime. Essa terra já foi nossa. Vocês eram apenas o gado e nós os funcionários do Matadouro. Mas vocês dominaram armas nos obrigando a habitar o subsolo. A cidade abaixo da cidade. O mundo interior e escuro. Isso nos tornou brancos e sensíveis ao sol. Depois de gerações. Mas nos tornou vivos, telepatas e incrivelmente mais fortes. Chame de força psicossomática ou outra bobagem qualquer. Chamem de... Justiça.

Aí vem um de vocês. Amanhã leia no jornal. Vão achar mais um corpo na linha do metrô.  



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