Terra de cego


1

Era uma vez um reino. Onde só um rei reinava. Um rei idolatrado com um olho só; na terra onde quem tinha um olho era coitadinho. Naquele reino todos enxergavam bem, mas mesmo assim deram um jeitinho de destituir um antigo rei e mudar o nome do regime para Palhaçocracia onde qualquer um podia governar desde que fosse considerado rei-momo pela nação. Assim colocaram o caolho pra mandar. Claro que usaram a deficiência do caolho para torná-lo um herói, mas o que poucos sabiam (exceto alguns caras maus que conheciam o caolho) era que havia cegado a si mesmo para pousar de pobrezinho da nação. O antigo rei podia ser ruim, mas pelo menos tinha dois olhos para enxergar mais longe e tridimensionalmente em vez de encarar o próprio umbigo cabeludo e cheio de Néctar-Ardente (a bebida mais popular do reino).
A Palhaçocracia era a bola da vez e por mais que alguns intelectuais tentassem mudar aquela bosta toda, o povo continuava idiota. Foi aí que ele apareceu: O Mão-de-doze.
Era um cara comum com dois olhos e um ódio “Genuíno” pelo Caolho e pela sua corja de usurpadores. O Mão-de-doze sabia que seu país, era um país de bestas acomodadas que mal sabiam o preço do barril de vinagre (o combustível número um) e estavam mais preocupados com o próprio rabo que com o futuro da nação. Mão-de-doze morava numa caverna. Em um vilarejo onde as mulheres no passado (e dizem que ainda hoje) costumavam ser doadas aos nobres para sessões de Nakamachupra. Ele era filho de uma dessas sessões. Uma em que o caolho requisitou sua mãe para servir aos deveres da pátria. Logo que ele nasceu seu pai “de criação” descobriu que o seu filho era na verdade um bastardinho do Caolho. O pirralho tinha uma deficiência genética que lhe afetara o dedo indicador fazendo-o pequeno como um mindinho cortado. Impedido de fazer justiça pela mãe (dona Lambeprepucia) que era uma fervorosa serva do futuro rei matou a ela e a si mesmo deixando o pequeno Mão-de-doze a ser criado por seu tio Pedofolico – que o criou com muito mais amor que o necessário. Intermináveis sessões de amor noite adentro temperadas com gritos infantis. Em um furto aos seus dezenove anos teve a prova de sua paternidade (o dedo) junto com a mão, amputada pela guarda do reino. Conseguiu um enxerto com uns guerrilheiros locais (ainda mais corruptos que o rei) e ganhou uma cano-doze-cerrado adaptada a seu coto ciborgueticamante, como um robocop nascido na vafela (barracos que o povo construía nos morros sem dono).
Esse rei de um olho só era descuidado demais e pela primeira vez na história daquele reino deixou rabo-preso suficiente para ser acusado pelas pouquíssimas autoridades que não conseguira comprar com ações das plantações de uva (para produção do vinagre combustível que obrigatoriamente era orgânico para manter o preço em alta) e favores sexuais das servas sempre fiéis e idiotas do reino. Também contava com uma rede de informações chamada “Rede-tolo” que debilitava o cérebro de quase todos com seu bombardeio subliminar e sócio-corrosivo. Tanto descuido o obrigara a sair pelo reino para re-doutrinar e manipular ele mesmo a população. No rei, o que faltava de honestidade sobrava em retórica. Era um fantástico orador e dizem que havia convencido até o Sanguilá (um cara que mora no mar e fez o mundo) a dar a ele todo aquele poder... Isso é o que dizem.
O que o Mão-de-doze sabia de verdade é que seu pai charlatão estaria em sua cidade naquele dia.

2

– Vê se deixa essa porra funcionando, hein mano?
– Já falhei com você? – perguntou o ferreiro especializado em ciborguética.
– Vê se não começa hoje – disse o Mão-de-doze com a cara feia e cheia de barba por fazer de sempre. Na sequência deu uma cusparada de fumo na cuspideira de lata.
– Você vai mesmo fazer isso, filho? Pensa bem... Por que não escolhe levar uma vida normal como todo mundo?
– Você não entenderia. Pra isso teria que ser um filho da puta arrombado feito eu.
– Esquece isso, meu filho; reza para o Sanguilá te dá o poder do perdão.
– Se você continuar com essa porra de perdão vou testar meu braço na tua cara, velho – ameaçou com o braço armado.
O velho calou a boca que tentava animá-lo e continuou ajustando o braço. O coto por dentro do cone que unia a doze à carne pegava fogo. Parecia ser comido por um verme ou chupado por bocas com dentes de aço a cada apertão que o velho dava. O “Mão” (para os íntimos) nem se mexia. Parecia gostar daquilo. A dor era uma velha amiga para ele; a única coisa verdadeira que conhecia. Já tinha conhecido duas ou três mulheres também, mas acabou matando a todas. Eram só vadias vendidas, como boa parte do reino; como fora sua mãe.
– Não arrumou essa porra ainda? – perguntou um terceiro.
– Cala a boca seu porra ou te encho o rabo de chumbo – disse Mão.
A voz e o corpo de cento e vinte quilos que entraram no ferreiro eram de Soco-forte. O único cara que conseguira derrubar o “Mão”. Mesmo assim no dia ele estava bêbado e com a cara cheia de Néctar.
– E aí? Vai mesmo fazer isso?
– Por que todo mundo me pergunta a mesma coisa, hã? Que porra Soco! Até você?
Soco-forte ficou quieto encarando o trabalho do ferreiro. O velho de barba amarela (de tanto fumar capim forte) fazia que “não” com a cabeça a cada aperto, mas era um cara fiel ao Mão. Faria qualquer coisa por ele. Devia esse favor desde que o Mão sacrificara a esposa do velho contaminada com “bigato-forte” (um verme de cinco metros que não tinha cura). O rei caolho não permitia que nenhuma vida fosse tirada pelo povo sem sua ordem. O caso da mulher do ferreiro não fora aprovado pelo sistema de saúde do governo (custava caro para o estado), o que a obrigaria a ser comida de dentro para fora não fosse a intervenção chumbada do Mão-de-doze.
– A gente se preocupa, Mão. Tão falando por aí que o rei mudou... Que ele tá cuidando das crianças de rua... - respondeu Soco-forte.
– Eu ouvi falar que ele tá arrancando a cabeça da molecada pra manipular os números – respondeu Mão. Soco ficou quieto com a cara de besta que lhe era peculiar.
– Tá pronto – disse o ferreiro.
O Mão deu uma boa olhada na sua prótese; mirou numa lata de feijão e disparou. Bem na base. A lata subiu meio metro e ele acertou de novo. E mais uma vez. Ele tinha trinta tiros com as modificações do ferreiro e pelo menos cinco gastou na lata antes de devolvê-la para o chão forrado com palha de arroz.
– Valeu, Podrão – agradeceu Mão-de-doze. Depois arrastou o desinteligente do Soco-forte com ele para a praça da cidade onde se encontraria com outros dois Néctarolatras que ajudariam na operação "mono-zóio”.

3

A praça estava lotada de cachorros magros, vendedores, guardadores de veículos e gente. Povo simples e besta educado pela "Rede-tolo" e pronto para engolir qualquer bobagem. Estavam ansiosos para ver o rei frente a frente. Mão-de-doze também estava ansioso; para matar o próprio pai.
   Conforme o combinado estavam no inicio da tarde, dois maltrapilhos, Mão e Soco reunidos no Pub do ruivo em frente à praça esperando à hora certa de atacar. A mão mecanizada do Mão estava ensacada em uma proteção de couro cru. Havia segurança por todos os lados, mas o mesmo dinheiro que os pagava para serem sacanas com a bandidagem, também pagava por sua displicência. E dinheiro o Mão tinha desde que herdara a herança de Pedofolico, morto misteriosamente com um tiro de Doze enquanto cagava. Gastavam alguma coisa com Néctar enquanto o prazo de chegada do rei já atrasava em uma hora.
– Esse desgraçado não vem... – disse Mão.
– Vem sim, tenho certeza – respondeu Soco-forte. Os beberrões ignoravam a conversa saboreando a bebida maldita.
Minutos ansiosos depois os sinos da igreja começaram a tocar afetando com alguma histeria a população. Parecia que o próprio filho de Sanguilá havia voltado dos mares.
Moças novas desmaiavam de tanto gritar, velhas senhoras já na menopausa se abanavam acaloradas, homens saudavam com “Heils” o monarca mono-olho que desgraçara com dívidas e corrupção o reino todo. Em meio à confusão ninguém ouvia o tilintar das correntes que ornamentavam a bota gasta de um justiceiro. Alguém armado que enxergava o que aquele maldito caolho andava fazendo. A queima de fogos começaria logo e com o desgraçado a frente do púlpito como sempre fazia. Aquele seria o momento para o disparo certeiro que tombaria o rei. Ninguém saberia ao certo se o estampido fora de um rojão ou de uma cuspideira de fogo adaptada a um delinquente.
Mão-de-doze começou a perceber uma movimentação estranha nos ombros de Soco que ia na frente dele e dos outros dois a seu lado. O trabalho de Soco era abrir caminho com sua monstruosidade corpulenta.
O que esse filho-da-puta tá fazendo?, pensou Mão.
Ele confiava em soco. Acreditava que eram amigos. Mas sua consciência de assassino dizia a ele que os amigos também traem como todas as mulheres com quem se envolvera na vida. Seguindo os movimentos de Soco percebeu logo a resposta de dois elementos vestidos com o uniforme vermelho da guarda real. Não deixaria aquilo estragar seu plano.
– Soco? – chamou. O amigo aproximou-se para ouvi-lo.
– Tá me traindo né, filha-da-puta?
– Força do hábito – disse esboçando um sorriso manchado de tabaco e um movimento de erguer os braços. Antes que conseguisse realizá-lo Mão-de-doze sacou um punhal enferrujado com sangue do último porco de seu curral e mergulhou-o em seu baço. Sabia bem como matar porcos, inclusive os grandes como Soco.
– Não precisava disso – suspirou Soco caindo de joelhos e colando a boca na direção do pau de Mão-de-doze.
– Desculpa Soco-forte... Força do hábito – respondeu o assassino guardando o punhal.
Uma velha a seu lado acabou vendo o sangue e passou a gritar. Os fogos riscaram o céu enchendo os pássaros de temor com a explosão da pólvora. A velha se esforçava para que sua voz superasse o barulho.
– Agora! – Sinalizou Mão para os dois beberrões.
Imediatamente eles se afastaram sumindo na multidão e começaram uma briga. No terceiro pontapé de um deles outro homem com cara de bravo se envolveu, depois outro que segurava uma galinha, e outro e outro... Como planejado uma clareira se abriu permitindo que o Mão se aproximasse ao mesmo tempo em que a guarda nacional se distraía com a briga. Rapidamente o chão próximo aos beberrões estava pontilhado de uniformes vermelhos. O rei Caolho parecia não se importar.
Mão-de-doze o encarava. Sentia-se o pior bastardo do mundo e ao mesmo tempo o único homem naquela turba de dementes que sabia da verdade. Ele faria justiça a qualquer preço. De qualquer jeito.
Cacete, ele é minha cara, pensou.
Com a perícia de quem treinou para aquilo por toda a vida ele retirou o saco de couro que cobria seu nome. Foi aí que aconteceu.

4

O rei caolho olhou direto para ele como se uma magia inexplicável o avisasse do perigo. Olhou-o como um pai. Cheio de ternura. Mão paralisou com o braço cuspidor de fogo abaixado e contido. Lacrimejou com o rei que lacrimejava. Estaria ele arrependido? – pensou.
Mão-de-doze avançou pela clareira. Caolho chegou mais próximo do púlpito  Um homem de uniforme vermelho fez menção de se intrometer, mas o rei caolho não deixou dando um sinal para que deixasse aquela peleja com ele. Estavam frente a frente separados por três metros e uma velha que de costas saudava o rei. Mão com um chute jogou a velha para longe, permanecendo a encarar o olho sadio de caolho. Era como olhar para si mesmo.
Como olhar para si mesmo, pensou. Depois pensou no que ele faria se fosse caolho. Se estivesse vendo seu próprio rosto rejuvenescido e revoltado por uma vida porca proporcionada por ele.
Eu mataria o bastardo, pensou.
Caolho sacou da parte de trás de sua calça outra arma. A coisa prateada mais comprida que seu filho bastardo e assassino já havia visto. Uma linda arma com um calibre capaz de explodir um elefante. Estava apontada para Mão-de-doze. Foi quando o último rojão explodiu no céu. O pistoleiro sorriu com algo vermelho em seus dentes... Sangue.
Imediatamente homens de vermelho transformaram o que sobrou de seu peito em uma peneira de carne e vísceras. O chão estava salpicado de vermelho e Mão-de-doze reconheceu-se em seu ultimo suspiro como a lata de feijão que se recusava a cair. Quando atingiu o chão não era mais o pistoleiro a fazer justiça. Ela apenas um corpo.
A multidão saiu dispersada a socos e pontapés promovidos pela guarda real. Mais sangue lavou a praça penitenciando aquele povo por sua estupidez. Crianças, velhos, mulheres e adultos pervertidos pela língua veloz do rei caolho se juntavam esmagados pelas botas surradas do povo. Uma massa cadavérica e mal cheirosa de suor e excrementos compactou o chão.
Aquele dia horrível finalmente acabou e já em suas casas todo o povo ouviu a manchete da "Rede-tolo" veiculada pelo grisalho charmoso que toda velha dali queria em sua cama:

"Morre o melhor Rei que esse reino já teve. Em seu lugar, seu filho até então desconhecido na vida pública assume; o bilionário e proprietário das maiores vinícolas do reino: Caolho segundo".

Uma criança que conhecia bem seu pai bastardo urrou raivosa em alguma das tantas cabanas simples daquele reino jurando que por suas mãos, a justiça um dia deixaria de ser cega.   

FIM





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