Posso Fumar aqui?



Eu acho difícil contar alguma coisa que você não tem muita certeza de como aconteceu. As palavras de um ébrio têm essa mania de usar fantasias e por mais que você tente enxerta-las nas frases elas acabam se disfarçando e fazendo o que querem. Foi assim com a história daquele cara, dos meus amigos e a minha própria. O cara? – O maldito chinês gótico.
A gente já tinha tomado todas e o Tião tava querendo fechar o bar porque o pessoal começava a achar que era cantor de banda de rock. Todo mundo que vai no bar da “Dilma versão homem”, acha que tem a voz melhor que a do Bruce Dickinson; até eu. A gente já tava alto quando esse China chegou com cara de bunda e a testa sangrando. Eu pensei que era assalto, o Tião desapareceu pela porta dos fundos. Um dos caras que tava com a gente e é PM meteu a mão na cintura procurando a arma que tinha ficado em casa. Ele é gente fina... nem parece policia e hoje penso bem se não teria sido melhor estar com a arma naquela noite. 
E eu sou só um cara. É... Só mais um cara que detesta o próprio sobrenome. Mas eu quero mesmo é contar do China.
Depois que ele apareceu pingando sangue na porta com a testa aberta feito uma xota menstruada e a gente viu que não era assalto, resolvemos falar com o cara; com o China muito-loco. Ele estava todo de preto com umas calças manchadas de velho nas cochas e rasgadas no joelho. Tinha um cinto da hora, com uma fivela de dragão manchada de sangue vermelho. Certeza que era sangue. O cabelo do cara, preto escorrido como todo cabelo de China, tinha a franja que chegava na cintura e o resto um pouco acima do ombro. Ele tava com os dedos todos cheios de braçadeira – daquelas que a gente usa na mangueira do gás pra apertar, usava elas como soco inglês. O dono do boteco já foi logo pegando uma vassoura e tentando expulsar o cara. O neguinho que era o cara mais justo do mundo - e também mais bêbado - resolver ajudar o China.
- Tudo bem com você? Parece que acabou de sair de uma briga. E esse sangue aí?
- Posso fumar aí dentro? – perguntou o China.
São Paulo tem essa porcaria de lei de não poder fumar dentro de lugar fechado. A gente do bar fumava; até o dono do bar fumava. Quando chegava algum policia o Gambá (o amigo policia que eu disse que tava sempre lá) dava um jeito de aliviar as coisas. Fumar deveria ser considerado um direito natural do homem feito peidar quando a música tá alta ou a noite fria. Você sabe que vai incomodar, mas mesmo assim você faz. Eu tô meio tonto ainda, faz tempo. Acho que é efeito da coisa que o China deu pra gente, mas eu não cheguei nesse ponto ainda. Tenho que te contar mais sobre o China antes... 
O neguinho colocou ele pra dentro do bar sem ligar muito para o quê o dono do boteco pensava como sempre. Ninguém respeitava muito o dono do bar, nem ele mesmo que era sovina e interesseiro como todo dono de bar. Vivendo da desgraça dos caras que acabam com o salário na garrafa. Aquilo não devia ser chamado de bar; era mais uma garagem cheia de caras doidos e outro doido pior servindo.
 - Entra aí cara – eu falei também.
- O cara entrou, deu uma suspendida na calça e acendeu um cigarro. Marlboro branco. Eu também gostava daquele cigarro. Depois tirou as braçadeiras dos dedos e cumprimentou todo mundo. As mãos dele estavam raladas. Devia ter feito um belo estrago com os caras.
- Você tá bem? Seca essa testa aí – o gambá falou pra ele. Policia ou não, como eu falei, ele era gente fina.
- Tô sim – falou o China. – Acabei de sair na mão com uns caras. Acho que era um bando de Skin-Heads. Esses caras não gostam de cabeludo.
- Não mesmo – eu falei. Eu também já tinha apanhado dos caras uma vez. No meu caso não foi por causa do cabelo. Eu tava com uma camisa do Raimundos e levei na cara por isso. Os caras falaram que eu tava dando moral pra nordestino. Na sorte consegui correr antes de perder um dente. Ou vários.
- Vou sair e dar uma dura nos caras. Onde os filha-da-puta pegaram você? – perguntou o Gambá.
- Na rua da prefeitura. Deviam ser uns seis ou sete caras. Só escapei mesmo porque acertei um deles na cara com a fivela (eu sabia que era sangue; conheço sangue). Pra gente andar feito gótico tem que aprender a bater. Regra número um – falou o China sem-noção dando uma risadinha. A gente riu junto.
Não seria muito esperto da nossa parte tentar impedir o Gambá. Depois da quinta cerveja (e ele já estava na oitava) ele entrava no modo automático onde espancar e abusar do poder era trivial. Ele saiu cantando pneu e era bem provável que daria uma volta no quarteirão e voltasse contando que botou os caras pra correr sem ter encontrado ninguém. E com certeza ninguém iria contraria-lo.
Desde que começou a se falar em copa do mundo no Brasil a policia da capital tava descendo o bambu na bandidagem. Como não tinham onde se esconder, (quando a policia quer pegar alguém ela pega parceiro, não tenha dúvida disso) eles acabavam descendo pelo ralo até o esgoto do interior. Eu moro bem no meio dessa merda, em Taubaté. Entre o Rio e São Paulo. Imagina só o paraíso do ilícito que tava virando isso aqui. Fora que junto com a bandidagem veio o resto: mulher fácil, grana, droga e pancadaria. Essa turma de carecas chegou fazia uns dois meses a até ali fizeram o possível pra mandar na banda podre daqui. No bar era todo mundo de paz, o mais estressado era o França, mas estava preso desde que bateu na mulher. Coisas da bebida, amigo... Não julgue o cara por isso...
- Aumenta a porra do DVD Tião – pediu o neguinho. O cara adorava duas coisas na vida: álcool e rock and roll. Gente boa ele. Era um Pelé meio desbotado e em miniatura. E o cara mais sistemático que eu já conheci. Professor de português na escola do estado.  
O Tião fez o que o neguinho pediu e a bebedeira continuou. Foi aí que eu vi o China tomando uma pílula verde. Verde e brilhante como os olhos de uma espanhola de zona.
- Que é isso aí cara? – eu perguntei. Os caras cresceram o olho junto comigo.
- Remédio – disse o China engolindo antes que alguém tirasse da mão dele.
- Que remédio? – perguntei de volta.
- Pro estomago – disse o China rindo meio sem jeito.
- Conversa... Me dá um – pedi.
- Cara, se eu fosse você não tomava essa porra aqui sem saber direito o que ela faz – disse o China. “O bagúio é loco”.
- Não é pro estomago? – perguntou o Tião.
Apresar de gente boa ele não era muito esperto. Deve ser por isso que a “dona Maria” meteu uma galhada nele. No fundo eu tinha dó do cara. O pessoal do bar dizia que ele já tinha tido grana antes da patroa dele levar metade da rua pra cama. Depois ele ficou desiludido. Acabou queimando tudo. Hoje comia do pouco que a gente gastava no bar pra se divertir no domingo.
- Acho que não Tião – falei com jeito pra ele não se sentir um idiota.
- Conta aí o "pérola do oriente"; o que o compridinho faz? – perguntou outro colega nosso. Um paquiderme meio sem educação chamado Gonçalo. Ele não precisava fazer muito pra arranjar encrenca. Eu penso que ele existir já era uma puta de uma confusão do Céu. O cara era um “orc”. Com a intimada sutil do Gonçalo o China resolveu falar.
- É tipo um... um... Um upgrade na manguaça.
A cara de dúvida começou a tomar conta de nossas caras. Gonçalo acendeu outro cigarro e sentou do lado do China.
- E de onde vem essa coisa?
- Vem da Tailândia. Meu primo veio de lá e trouxe um monte delas.
- Como assim? Um monte.
- Uma caixa de sapato cheia. Eu tenho um pouco aqui comigo. Acho que era isso que os caras sem cabelo queriam. Meu primo andou vendendo a coisa pra eles e acho que eles querem mais.  
  - E esse comprimido faz exatamente o quê? – perguntei. O China fez uma cara esquisita tentando não contar muita coisa. Olhou pra porta do Bar e meio que se levantou. Gonçalo com sua delicadeza apoiou a mão nos ombros do China e pediu pra ele ficar mais um pouco. O cara ficou e depois de ver que não sairia dali sem dar uma explicação abriu o bico.
- Ele te mantêm chapado.
- Como assim? – perguntei.
- Eles te mantêm lôco cara. Se você estiver cheirado fica cheirado, se estiver bêbado fica bêbado.
- Por quanto tempo?
- Sei lá.
- E como faz pra sair da chapação? – perguntou Gonçalo.
- Daí você precisa do comprimido branco – respondeu o rapaz de olho puxado tirando um do bolso da calça. Tava embrulhadinho em um papel alumínio. Coisa de amador mesmo. O primo do china deve ter trazido ele pra cá dentro do intestino como uma mula cheia de coca. – Acho que era desses que os caras sem cabelo queriam.
- Você já tomou? – perguntei.
- Já sim. Tomo direto. Economizo uma grana com eles.
- E você fica... tipo... Bêbado direto? – disse Neguinho já se interessando. A gente gastava bem no bar, mas era o único cara que conseguia dever duzentos paus no Tião. Tem que beber muita cana pra isso cara...
- Direto cara... Você dorme e acorda Bêbado – respondeu o China.
- Me vende um desses – pediu Gonçalo.
- Eu te dou um cara. Fica valendo pela ajuda de vocês.
No fim todo mundo mandou um comprimidinho verde pra dentro. Cara... O mundo ficou rosa na hora. Parecia que tudo ia acabar bem, que toda mulher era bonita e aqueles dois ou três bêbados no bar (incluindo o China) eram os caras mais gente-fina do mundo. A coisa além de segurar o álcool no sangue deixava a gente no ápice do efeito. A gente se abraçou, se elogiou com todos os adjetivos que a gente conhecia e chorou. Choramos bêbados como um bando de colegiais abraçadas no baile de formatura. Deve ter sido a coisa mais ridícula do mundo (quase gay...eu escrevi quase!). Por sorte todos, inclusive o Tião estavam bêbados. Passadas as doze badaladas era hora da eu ir embora pra casa. Todo mundo estava tão louco que esqueceu completamente da porcaria do comprimido branco.
A noite passou voando apesar de eu ter dormido quase seis horas. Quando eu acordei minha mulher já tinha ido para o hospital. Ela trabalha lá... É enfermeira. Eu sabia que estava acordado e tomando um banho para ir para o trabalho, mas parecia que ia pra alguma festa. Eu estava elétrico; feliz da vida e com a auto-confiança de uma águia com fome. Eu iria arregaçar hoje. Nem me importei com o fato do meu trabalho ser uma bosta e eu um vendedor de material de construção. Sabe como é... A gente tem que ganhar o pão né... Eu não era exatamente qualquer vendedor. Estava bem a frente do resto dos caras que não faziam nada pra subir na carreira. Eu não... Eu queria chegar longe e sabia que iria conseguir. Na verdade aquela segunda-feira animada me parecia um dia excelente pra fazer qualquer coisa. Sentia um pouco de desorientação, mas devia por conta da porcaria do comprimido que eu achava que tinha tomado e não lembrava pra que servia. Não naquela segunda-feira. Nesse dia eu não lembrava de quase nada.

1 comentários :

  1. Texto com alguns errinhos, faltou tempo para uma revisão decente...

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